O Governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda continua [graças – nesta ordem cronológica – à Polícia Federal, imprensa, à OAB, ao Ministério Público Federal, ao Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Federal (em especial, ao Min. Marco Aurélio Melo)] preso, na sede de PF/DF; passou o carnaval preso o governante do DF! Quase inacreditável, em um país como o nosso, de democracia tíbia, quase um graveto, na selva dos fortes troncos de interesses corporativos e criminosos. A prisão de Arruda mostra a gravidade dos fatos que o envolvem e denotam a força das provas já reunidas, sobre o esquema de propinas. Esquema que atinge, também – como mostram os vídeos das conversas sobre percentuais do "propinoduto" – a pessoa do agora/ainda Vice-governador Paulo Otávio (também do Democratas), a ponto de dois um dos maiores líderes do partido, no âmbito nacional, Senador José Agripino haver aconselhado o político brasiliense a renunciar ao mandato, imediatamente e o sério Senador (antes Promotor de Justiça) Demóstenes Torres requerer a intervenção do partido no diretório estadual da entidade (coisa inédita, no Brasil – até onde eu sei). A imundície moral é imensa, beirando o inacreditável.
É nessa renúncia de Paulo Otávio que quero chegar. Estava (até a manhã de ontem) "tudo certo" para a renúncia de Otávio; falou com os (já citados) líderes do partido, convocou coletiva de imprensa, para a tarde. Antes, porém, havia a reunião (conseguida a duras penas, já que Lula não queria se misturar, claramente, com os envolvidos, apesar de querer os palanques eleitorais do DEM nacional, para Dilma Roussef) com Luís Inácio Lula da Silva, Presidente da República Federativa do Brasil. A reunião ocorreu, a portas fechadas. Otávio entrou, saiu e ninguém ficou sabendo do que foi falado. Ou melhor, ninguém ficaria sabendo, porque à tarde, ao final da coletiva de imprensa, Otávio disparou a sentença: "não posso renunciar e permaneço no cargo, seguindo o conselho do Presidente Lula"!!!... Estava aclarado tudo. Lula apoiou o homem, atolado até o pescoço em tanta propina... Naturalmente, Lula negou, através da assessoria de imprensa do Palácio do Planalto, que houvesse dado tal conselho a Otávio, mas alguém, em sã consciência crê que não tenha havido um incentivo de Lula, à permanência de Otávio na governadoria do DF?! Somente um ingênuo, um apaixonado por Lula (e, aqui, contam-se milhões de brasileiros, mas não eu; sou cético demais para ter paixão por políticos), como os há, no Brasil, em tal número, que cobriram Lula com uma "camada aética de teflon": nada de ruim se apega à sua imagem, mesmo que venha dele próprio. Os defensores letrados de Lula dirão: i' – que a renúncia de Paulo Otávio apressaria o processo de intervenção federal (requerido pelo MPF) no DF; i" – a intervenção federal, se instaurada/efetivada, impede a tramitação de emendas constitucionais; ii' – o DEM faz parte da "base de sustentação" do governo federal e é "importante para a governabilidade do país"; ii" – não existem provas contra Paulo Otávio, "apenas" um vídeo em que um dos maiores empresários do DF reclama do percentual de propina que P.O. exigia, dentro do esquema... Os argumentos são válidos? Para um descarado (beirando o cinismo malsão) sofista moderno (por isso Sócrates combatia os sofistas), sim. Os sofistas gregos, para provar que a verdade era relativa, dirigiam-se ao povo, numa noite, dizendo, por exemplo, que a morte era a maior tristeza da vida; e conseguiam convencer a todos, com argumentos inteiramente lógicos. Na noite seguinte, faziam outros discursos públicos, para a mesma comunidade e, também com argumentos inteiramente completamente lógicos, logravam convencer a todos da verdade oposta à defendida na noite anterior: a morte era a maior alegria da vida. Sócrates, ao contrário, via a verdade como algo absoluto, em essência e, antecedendo milenarmente a Kant, combatia tergiversação sobre a delimitação e o posicionamento ético ante dita verdade. No Brasil, não. Desde tempos imemoriais, a nossa tem sido uma nação de tergiversação da verdade, de posicionamento dúbio em relação a ela e – para lamento de todos nós – não apenas por parte dos governantes, mas de todos os estratos sociais (o que lembra o brocardo, cada vez mais em voga, no país: "O povo tem o governo que merece"). Na época das privatizações de FHC, da emenda constitucional para a sua reeleição; depois, quando do mensalão de José Dirceu e Roberto Jefferson; mais adiante, as crises de corrupção inacreditáveis, capitaneadas por Renan Calheiros e, a seguir, José Sarney, ambos com as bênçãos do Presidente Lula. Agora, novamente Lula põe a mão sobre um dos envolvidos no mensalão do DEM de Brasília... Lembrando que a defesa de Lula, em benefício de Sarney, em 2009 foi ainda mais aberta, descarada, imoral, vergonhosa e triste; contudo, apenas mais um capítulo na despudorada aliança entre PT e PMDB. Tudo isso, dizem os defensores de Lula, "em nome da governabilidade", com recurso à modernamente – e tristemente – decantada "ética da responsabilidade", segundo a qual só se pode ser ético até o ponto em que as consequências não tenham um impacto grande demais, na vida social, política e/ou econômica do país. Lula pensa – apoiando Paulo Otávio – nos riscos políticos, nos palanques estaduais de que Dilma Roussef precisa para a dura eleição que se avizinha. Deveria pensar no exemplo que dá, ao povo: podem fazer, podem roubar, desde que fiquem dentro de certo de limite. Mas o mundo só cresceu, só evoluiu, quando se desconsiderou dita "ética de responsabilidade", quando, apesar das consequências das escolhas fiéis à verdade, tomou-se o caminho do que fosse mais absolutamente moral, ético, correto, legítimo, puro, verdadeiro. O que me lembra o discurso final do personagem de Anthony Hoppkins, no filme "Amistad" (de Steven Spielberg, história real sobre a escravidão e a Guerra da Secessão, nos EUA), ante a Suprema Corte norte-americana: "Se a consequência deste caso for a guerra civil, que ela venha e que seja o último ato da independência americana". Estamos precisando da mesma coisa, aqui no Brasil: aceitar as consequências das lutas que a democracia impõe: prestígio/desprestígio político; popularidade ou a perda dela; amizade ou a perda dela; riscos de prestar depoimentos contra autoridades públicas; riscos de ingressar com uma ação judicial contra o Estado; o trabalho de pesquisar a vida pregressa dos candidatos em que pretendemos votar; o trabalho de ingressar com um ação popular etc. "Lá em cima", contudo, Lula preferiu não correr o risco de perder em palanque eleitoral, ao invés de defender a verdade mais clara que as câmeras de tv captaram, nos últimos tempos da política ("rectius": politicagem) nacional... Uma pena. Uma pena mesmo. –––––––––– |
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Por Eurico Batista